quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Primeiro encontro. Que decepção... Meu Deus!

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De: o mais gentil dos Josés
Assunto: primeiro encontro. Que decepção... Meu Deus!
Para: padreleo_ceu@hotmail.com

          Querido pai, não sei por que, mas hoje amanheci lembrando do meu primeiro encontro com o senhor. Olha, foi uma decepção só, viu?... Foi uma total quebra de expectativa, e... se fosse verdade que a primeira impressão é a que fica... hum!...
          Olha, como explicaria para o senhor posteriormente, eu estava vindo para Bethânia depois de uma experiência de dezessete anos de drogadição. Durante esse tempo eu morei nas ruas, e passei por inúmeras casas de recuperação. Numa dessas casas, nós, internos, assistíamos todos os dias, nos intervalos do almoço e janta, à programação da Canção Nova, e... as suas pregações. “Que coisa mais linda, meu Deus”! Maravilhava-me entre uma pregação e outra. “De onde saiu esse homem tão inteligente”? Perguntava-me.“De onde saiu esse homem que inventou uma nova maneira de evangelizar? E quem são esses “filhos” tão queridos, que o fazem encher os olhos de alegria quando fala neles”?
          Pois bem, naquele mesmo ano eu saí dessa casa de recuperação, recaí e voltei para as ruas e... depois de algum tempo – nas ruas – cheguei em Bethânia.
          Não precisa nem dizer, né, pai, que era grande a minha vontade de conhecê-lo. Eu tinha dealizado na minha cabeça um Léo virtual, ou melhor, eu tinha o endeusado, sabe?...
          Então cheguei ao recanto de Lorena, na véspera de Natal – dia vinte e quatro de dezembro –, e já fui perguntando: “onde está o Padre Léo?”. Porque na minha cabecinha o senhor morava no recanto de Lorena. Os Consagrados então me explicaram que o senhor não morava lá, morava em Santa Catarina, e passava por lá todo mês, quando ia pregar na Canção Nova, e que, por sorte minha, eu não ia demorar muito a conhecê-lo, já que o senhor estava vindo no dia primeiro de janeiro para pregar o acampamento de ano novo, como fazia todo ano.
          Ah! Pai querido, parece que os dias seguintes se dilataram, e cada fração de segundo converteu-se na eternidade. Passei aquela semana inteirinha sonhando com o senhor, sabe?... Eu treinava como ia ser o nosso primeiro diálogo... Eu ia pedir para ficar a sós com o senhor e ia abrir o meu coração ferido... Depois ia fazer uma boa de uma confissão, e...
          E foi nessa expectativa, pai, que eu o esperei naquele dia primeiro de janeiro. Antes, porém, ainda na noite do dia trinta e um, o meu companheiro de quarto chegou para mim e exclamou: “– olha, o pai chegou e esta lá no quarto dele”... Meu Deus! Por que ele foi falar isso?...
          Lembro que eu saí correndo para fora – e isso já eram quase onze horas da noite –, fui até a casa onde ficava o seu quarto, e... encontrei tudo fechado, percebia-se somente a luz acesa pela fresta da janela e um silêncio sepulcral.
          Então voltei, deitei e... não dormi.
          Ah! Pai querido, finalmente o dia amanheceu. Finalmente, depois de ouvir o cantar de todos os galos do mundo... O clarão da aurora invadiu pacientemente o meu quarto através das diáfanas cortinas da janela.
          Levantei-me, fiz a minha higiene pessoal, a barba,
sobretudo – Deus me livre de aparecer barbudo naquele primeiro encontro –, arrumei a cama, corri para a capela e fiquei lá com os olhos grudados na porta lateral. Sim, porque, de acordo com os meus cálculos, era por aquela porta que o senhor iria entrar. Aos poucos, os bancos de cimento que circundavam todas as paredes internas, assim como todas as toras de madeiras que ficavam espalhadas no meio da capela – servindo de banco – foram sendo ocupados pelos filhos que chegavam, alguns ainda meio sonolentos.
          Eu tamborilava nervosamente os dedos nos joelhos, entre um “Jesus manso e humilde de coração” e outro do terço de Bethânia, quando levantei os olhos e dei de cara com a sua portentosa figura atravessando os umbrais da porta lateral. “É ele!” – exclamei. “Finalmente, vou ter a graça
de ouvir aquelas lindas pregações ao vivo e em cores. E as piadas?... Nem se fala”.
          Ah! pai querido, que balde de água fria, né? O senhor entrou, vestiu-se com os paramentos sacerdotais em silêncio, sentou, fechou os olhos, e...
          “Não acredito!” – conjecturava eu, vendo o senhor saindo do recanto, no carro do Toshio, no final da missa. “É esse o Padre Léo?” – perguntava-me.
          Naquela ocasião, nem deu para ver direito seus olhões azuis, visto que o senhor fez toda a homilia com os olhos fechados.
          Que decepção, meu Deus!... Peguei-me desolado, batendo com a palma da mão na testa. Que homilia curta, nenhuma piada, e, no final, como se não bastasse, aquela paz de Jesus cansada!...
          Puxa! criei uma “barreira” pra valer com o senhor, lembra?
          “Onde já se viu?... Passei a noite toda acordado para falar com ele... e, no entanto”...
          Olha pai, a minha decepção foi tão grande, mas tão grande, que a partir dali eu passei a ignorar o senhor. Então,o senhor chegava ao recanto, e eu fazia de conta que nada estava acontecendo. Alguém falava: “– José, o pai chegou!” E eu, ensaiando um assobio de araque: “– quem chegou mesmo?”.
          Querido, o senhor deve estar aí no Céu “rachando o bico” disso tudo, não está?...
          Mas hoje, vou parar por aqui, sabe, pai. O relógio do meu computador está marcando seis da manhã, e eu preciso ir fazer minha oração pessoal.
          Te amo, pai.

José Gentil, bth
jpiresbethania@hotmail.com

Obs: esse e outros 39 "emails ao Padre Léo" fazem parte do livro "O Essencial é Invisível aos Olhos - A minha experiência pessoal com o Padre Léo", de autoria de José Gentil (ou o mais Gentil dos Josés, como Padre Léo o chamava), escritor e consagrado da Comunidade Bethânia.

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